Seja protagonista. Da sua Vida. De suas doenças
Somos seres biográficos, temos uma história única, diferente em cada um, cujo pertencimento ultrapassa a abordagem atual da Medicina ocidental. Necessitamos buscar este protagonismo em nossas vidas e na sociedade.
O Instituto de Medicina dos Estados Unidos em 2001 reconheceu a prática da medicina centrada na pessoa como essencial na adaptação dos sistemas de saúde às necessidades das sociedades atuais e futuras. Este reconhecimento foi o impulsionador do movimento internacional para uma cultura de prestação de cuidados centrados na pessoa. Esta mudança de paradigma do cuidado centrado na doença para a pessoa não tem como retroceder. É um ganho imprescindível para todos, população, médicos, enfermeiros, e todas as outras categorias envolvidas no cuidar do humano.
Sabemos há muito que a medicina revolucionou a vida das pessoas nos últimos 200 anos. Reconhecimento inegável. Neste período os ensinamentos das profissões da saúde migrou das ciências humanas para as biológicas. Isto trouxe avanços evidentes e deve ser reconhecido. Neste caminho, em especial nos últimos 50 anos de avanços tecnológicos nos afastamos de compreender as necessidades reais de nós mesmos. Tratamos doenças, lidamos com pandemias, criamos novas abordagens contra inúmeras formas de câncer. Melhoramos o mundo. Esta é minha visão. Mas, transmitimos a falsa impressão à sociedade de que podemos tudo, inclusive curar a morte. Nos afastamos do humano, nos aproximamos do biológico. Mas, somos mais do que apenas biológico.
A busca tem sido sempre curar. Tudo. Trocar órgãos. Mas, precisamos compreender que não curar em certas situações não caracteriza, em absoluto falha do profissional, do paciente ou familiares. Somos finitos. Nascemos, crescemos, vivenciamos milhares de situações, adoecemos e morremos. A sociedade ocidental tem muita dificuldade em lidar com isto. Pelo nosso modo de ver o mundo, que nos foi ensinado pela ciência, detectamos um problema, agimos e consertamos o que está com defeito e voltamos a ser o que eramos antes. Isto é tão absurdo que, em seu livro “Bom dia, Angústia!”, o filósofo francês André Comte-Sponville diz que chegará o momento em que morreremos curados. Ou seja, depois de “trocar todas as peças com defeito”, mesmo assim morreremos, pois somos humanos, que morrem.
Com o desenvolvimento da tecnologia médica, de inegável benefício, as pessoas conseguem hoje viver mais tempo, e os profissionais de saúde deram origem à uma ilusão de controle das doenças e da morte. Nota-se isto principalmente no lançamento de vários tratamentos experimentais, na busca de vencer tudo que atrapalhe o conceito de felicidade do ser humana. Precisamos nos conscientizar que adoecemos, e nem tudo será curado ou resolvido. A idéia da guerra a ser vencida é o retrato da comunidade hoje.
Neste novo modelo os profissionais de saúde precisam aprender a respeitar valores e preferências individuais, promovendo a autonomia através da participação nas tomadas de decisão. Isto feito através de uma informação clara e uma linguagem adequada, que possibilite ao doente e sua família ter condições de escolhas bem detalhadas sobre seu real estado e atendendo às necessidades de conforto e suporte emocional. Em 2015 a ONU-Organização das Nações Unidas, que congrega 193 paises reforçou a importância deste mudança de atenção à saude, para um modelo centrado na pessoa e não na doença, integrando as perspectivas de indivíduos, famílias e comunidades.
Na prática desta nova abordagem tanto o paciente, com experiência em sua saúde/doença/modo de vida quanto o profissional da saúde, perito no conhecimento clínico do tratamento e do cuidar tem o mesmo peso nesta relação. Indiscutivelmente o profissional tem plenas condições de indicar o tratamento adequado àquela doença, mas sempre levando em consideração toda a biografia, vida e opções do doente, além da sua patologia. Não se tratam mais doenças. Tratam-se pessoas e suas doenças. O profissional, de saúde precisa dar abertura para a escuta para aprender com o outro e sobre o outro, pois é por meio da narrativa que se tem acesso à essência de quem é aquela pessoa e o que nela precisa ser tratado.
Falemos um pouco sobre a Distanásia, muito comum nos tempos atuais. Pergunta: vale a pena realizar qualquer medida extrema, exames desnecessários que não irão salvar aquela pessoa? Realizar terapias ou cirurgias desesperadoras para manter um paciente vivo, no caso um sujeito biográfico? A qualquer custo, para prolongar aquilo que resta daquele ser que sofre? Muitas vezes a vida daquela pessoa que queremos prolongar, em casos incuráveis, apenas tornam mais doloroso e sofrido o processo de morrer, em nada melhorando a vida que resta. Muitos profissionais de saúde e familiares tentam, com medidas heróicas, manter aquele paciente vivo, em primeiro lugar para “segurá-lo” o maior tempo possível entre nós, mas também para que nossa frustração em não conseguir curá-lo seja aplacada, amenizada. Precisamos refletir sobre isto. Nunca devemos encurtar uma vida ou tirá-la, como alguns que defendem a Eutanásia. Além de ser proibido em nossa legislação, eu particularmente sou contra. Mas, prolongar o sofrimento de uma pessoa com uma doença incurável, de longa evolução na tentativa de mantê-la aqui, a qualquer preço, pergunto: a quem estamos ajudando de fato? Distanásia é isto: tratamentos fúteis, terapias experimentais ou medidas desesperadoras para tentar curar alguém que já não pode ser curado. Proponho refletirmos sobre isto.
Trouxe à discussão este assunto para que, juntos com nossos profissionais de saúde busquemos tornar viável este caminho. Ser respeitado em sua biografia em todas as dimensões de humanos: biológica, social, emocional e espiritual. Tratar somente o corpo desconsiderando toda esta nossa complexa estrutura não mais satisfaz. A ninguém.
Clécio Ramires Ribeiro. CRM/RS 15.143. Médico Pediatra.
@sempretemoquefazer

.jpg)


.jpg)

.jpg)









.jpg)












.jpg)
.jpg)
.jpg)





.jpg)

.jpg)


