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21/04/2018 09:21


DESAFIOS DOS EMPREENDEDORES DA INFORMAÇÃO por Karin Schmidt

O sangue empreendedor e a vocação jornalística são de família. O pai criou o jornal e passou como herança para o filho, o amor à comunicação e à arte de empreender. No dia 18 de abril de 2018, o jornal A Notícia, de São Luiz Gonzaga, chegou a edição de número 8.000, sob a batuta do jornalista missioneiro, José Grisolia Filho, conhecido como Iso Grisolia. OITO MIL EDIÇÕES não é pouca coisa. Ao contrário, mostra a força e a perseverança de uma família que acreditou, e continua apostando no empreendedorismo.
O projeto de um jornal em São Luiz Gonzaga iniciou graças a informação que o patriarca José Grisolia recebeu na época. Ele soube da existência de um material gráfico e máquina impressora, que haviam sido utilizados para divulgar movimentos revolucionários e que foram atuantes desde o final do século 19 e início do século 20. Chegou ao seu conhecimento, que tudo isso estava escondido em algum lugar da região missioneira. E estava mesmo, muito bem enterrado às margens do rio Uruguai.
O jornalista José Grisolia descobriu a quem pertencia o material e comprou do proprietário. Depois de resgatado, foram necessários ainda alguns meses para separar o material de forma a permitir seu uso e conseguir abrir o jornal em 29 de julho de 1934.
Mais de 80 anos se passaram, mas essa valorosa história não se perdeu no tempo. O jornalista José Grisolia Filho, de 75 anos, com a mesma determinação e dedicação, vem dando seguimento ao trabalho de seu pai, com maestria, para manter viva a arte de empreender. Seu Iso não esconde o orgulho por todas as conquistas alcançadas e nem alguns tropeços profissionais no caminho trilhado, algo perfeitamente compreensível quando se investe na criação e expansão de uma empresa. De forma muito realista e coerente, ele contextualiza que o jornal impresso não pode terminar, por ser um testemunho do jornal online.
O jornalista José Grisolia Filho sorriu quando toquei nessa questão. Mas, como ele sorriu também com os olhos, em seguida confirmou que está sim, trabalhando firme para que o Jornal A Notícia, de São Luiz Gonzaga tenha, no mínimo, mais outras 8.000 edições. Mesmo que não seja mais sob o seu comando. Pois, da mesma maneira e intensidade com que herdou o amor à arte de empreender, quer passar esse entusiasmo e valor pelo empreendedorismo para as futuras gerações missioneiras.

TUDO COMEÇOU NA DÉCADA DE 30. CONTE COMO FOI?
José Grisolia Filho - O idealizador e criador do jornal foi o meu pai, que começou na área trabalhando com o irmão dele, que tinha jornal e gráfica em Santo Ângelo. Ficou lá por um período, conheceu bem o ramo e decidiu se estabelecer em São Luiz Gonzaga. Ele recebeu a informação de que existia material gráfico e até uma máquina impressora escondida em algum lugar aqui da região, que tinha servido para divulgar movimentos revolucionários. Meu pai conseguiu descobrir quem estava com a posse e comprou o material gráfico. Estava enterrado às margens do rio Uruguai e meu pai foi lá, desenterrou e trouxe pra casa. A partir daí, levou alguns meses para separar o material e permitir seu uso. E assim conseguiu abrir o jornal dele, apesar do pouco recurso financeiro.

QUANDO E COMO FOI A CIRCULAÇÃO DA PRIMEIRA EDIÇÃO DO JORNAL A NOTÍCIA?
José Grisolia Filho - No dia 29 de julho de 1934. Data que consideramos também de fundação da tipografia, que funcionava junto. A tipografia, que trabalhava para serviços gráficos das empresas de segunda a quarta-feira. Na quinta, sexta e sábado fazia o jornal, que era de 4 páginas, mas, 4 páginas trabalhadíssimas. O material que tinha era disponível para fazer uma página. Fazia uma página, imprimia e depois tinha que devolver o material gráfico utilizado às caixas de tipos, para usar na composição de outras páginas. A composição era manual. O tipógrafo tinha em suas mãos um aparelho chamado ‘componedor’, onde fazia a composição do texto letra por letra. Foi assim até a década de 1960, quando compramos máquinas linotipos para fazer a composição fundindo as linhas do texto em uma liga de chumbo e antimônio. O comando era através de um teclado, semelhante ao de uma máquina de escrever ou dos atuais computadores.

QUAL A REPRESENTATIVIDADE EM COMPLETAR 8.000 EDIÇÕES?
José Grisolia Filho - Representa uma marca de presença contínua, porque o jornal nunca teve interrupções desde que iniciou suas atividades em 29 de julho de 1934. Até hoje, sua circulação se manteve dentro daquilo que estava programado. Inicialmente era uma edição semanal, depois passou a bissemanal, e continua assim. Para todos nós, equipe do jornal A Notícia, é um orgulho e muito gratificante podermos comemorar 8.000 edições, no dia 18 de abril de 2018. Poucos jornais alcançam esse número, especialmente no interior, onde a publicidade não é muito fácil para os veículos impressos.

QUAL A MAIOR LUTA PARA MANTER ATIVO O JORNAL IMPRESSO?
José Grisolia Filho – A grande luta para quem faz jornal no interior é descobrir exatamente o nicho em que precisamos atuar. É fundamental conjugar boa cobertura jornalística, mas com publicidade suficiente para manter esse serviço com qualidade. É um jogo combinado e necessita destes dois valores juntos, para que a resposta tenha um trabalho consequente, unindo credibilidade e permanência.
ATÉ QUE PONTO A MÍDIA ONLINE INTERFERE NA PERMANÊNCIA DO JORNAL IMPRESSO?
José Grisolia Filho - O mercado do jornal impresso vem sofrendo algumas dificuldades. Por isso, também estamos com a versão online ao alcance de quem nos acompanha. Mesmo com um pequeno anúncio em nossa página na internet, já temos mais de 400 assinantes. Consideramos um começo, pois precisamos mesmo é de quatro mil assinantes online. Temos um público fiel de leitores e também de anunciantes. Mas, as novas gerações são claramente pelo virtual.

PODEMOS DIZER QUE A COMUNICAÇÃO ESTÁ DENTRO DE UM COMPUTADOR?
José Grísolia Filho - Sim, isso é um fato. Porém, a mídia impressa não pode acabar porque ela é um testemunho do jornal online. Tem grandes jornais no país que terminaram com a edição impressa, ficaram somente com a online e simplesmente sumiram. Ou seja, desligaram as máquinas, apostaram tudo na mídia virtual e não foram bem sucedidos. Por isso, temos que trabalhar com essas duas possibilidades de chegar ao leitor.

UM DOS MOMENTOS QUE MARCARAM SUA TRAJETÓRIA NO JORNALISMO?
José Grisólia Filho - Estou no jornal A Notícia desde 1964. São tantos, que não me recordo de todos. Como eu gostava muito da área política, assim que iniciei, uma das minhas primeiras reportagens foi neste setor. Eu vinha da universidade, de um ambiente de muita participação nos diretórios de estudantes, e eu trouxe esse entusiasmo para o jornal. Cheguei aqui com todo gás e me envolvi muito na área política. Isso não foi bom para o jornal.

POR QUE NÃO FOI BOM PARA O JORNAL?
José Grisolia Filho - Porque, automaticamente comecei a colocar muita opinião e isso prejudicou o jornal comercialmente. Eu transpirava ideias demais. Avaliando bem, eu não deveria ter feito isso, mas faz parte de nossa história. Tinha uma área da cidade que ainda tinha dificuldades de manter uma relação mais próxima com o jornal, por causa de seu passado político. Mas vencemos isso e hoje as pessoas vêm aqui com naturalidade, pois sabem que atuamos de forma diferente, completamente imparcial. Trabalhamos pelas lutas da comunidade.

E O SENHOR, SEMPRE ATUANDO NO JORNAL?
Sim. Desde 1964 até agora, sigo trabalhando no jorna A Notícia. Sou eu que faço as pautas. Aqui está a pauta do próximo sábado (21/4), que será a edição 8001, sempre sujeita a alterações de acordo com os acontecimentos. Pauta do editorial, enquetes e algumas outras, são sempre criadas por mim. Mas, tenho o privilégio de contar com uma boa equipe de trabalho.

COMO FOI A EXPANSÃO DO EMPREENDIMENTO?
José Grisolia Filho - Tivemos uma fase de muita expansão no jornalismo, pelo grupo A Notícia. Criamos a Folha de São Borja, que segue circulando e hoje é da família Andres; Folha da Produção, em Cerro Largo; Folha de Santiago e Folha de Uruguaiana. Estes dois últimos foram extintos. Além desses que criamos, na época compramos o jornal A Plateia, de Livramento. Na área gráfica, também tivemos empresas em Santo Ângelo, Santiago, São Luiz e São Borja. Corríamos de um lado para o outro, com aquela vontade de empreender, de crescer. Como em alguns destes empreendimentos não fizemos um bom negócio, aos poucos fomos voltando pra casa. Hoje estamos somente com os jornais A Notícia e Folha da Produção.

QUAL O FUTURO PARA ALAVANCAR A ECONOMIA DA REGIÃO DAS MISSÕES?
José Grisolia Filho - O novo valor que a região precisa buscar é a instalação de indústrias. O projeto industrial da região se encontra estagnado e isso não é bom para o desenvolvimento da região e geração de novos empregos Parece claro que beneficiar ao que produzimos é a jogada certa, mas na prática isso não ocorre, porque só grandes conglomerados atuam no fornecimento de insumos e no beneficiamento de grão. Não existe espaço para pequenos negócios. O caminho passa pela preparação de novos líderes para este setor. Descobrir novos nichos que possam ser vocações locais e empreender a partir daí. Reconhecer que o negócio pode começar pequeno e ir crescendo aos poucos, não precisa nascer grande. E nesse novo modelo de desenvolvimento todas as universidades são fundamentais. Cito em especial as universidades comunitárias, como a URI, a federal UFFS, de Cerro Largo, e a UERGS, de São Luiz Gonzaga.

O QUE O JORNALISMO SIGNIFICA EM SUA VIDA?
José Grisolia Filho - Aprendi que nessa área da comunicação trabalhamos com ideias que colocamos ao alcance da população. É um público heterogêneo de vários estágios de conhecimento. Ao mesmo tempo em que estamos oferecendo informação, também estamos fazendo com que estas pessoas se preparem para enfrentar desafios e mudanças, que são naturais, já que nada é permanente. Tenho isso sempre presente na minha cabeça. Nada é permanente, nenhum dia é igual ao outro. A cada dia, no mundo todo, tem milhões de pessoas fazendo algumas coisas que transformam e que, por alguns caminhos, nos atingem. As coisas mudam todos os dias, mas existe um processo constante de mudança que deve ser considerado, para que cada um possa garantir seu espaço.
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Karin Schmidt
Jornalista e Documentarista
KSS Comunicação

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