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Passo da Guerreira



    Foi a menos de século, pelos idos de 1930, depois da Revolução Federalista de 1923 e das proezas de Luís Carlos Prestes. Tem a ver com os rebuliços que findaram a República Velha, a que depôs o Presidente Washington Luís, onde o eleito Júlio Prestes nem empossou devido ao golpe do são-borjense Getúlio Vargas. Este assumindo governo provisório. Enquanto caía o preço do café no Brasil a escaramuça reboou* nas Missões. E claro, com dedos do Getúlio. Naqueles tempos famílias inteiras entravam em luta armada. Fosse por vingança, idealismo político, desavenças ou defendendo as terras.
    Foi num dos vaus do rio Piratini, onde é raso, piso reto e rochoso. De águas perenes, afora os tempos da enchente de São Miguel, as de setembro, a pé não dá na cintura, e com cavalo grande não molha as botas. Recontado nas rodas de mate, o causo saiu do Distrito Remanso para além de São Miguel, além das Missões...
    Os mamelucos* eram conhecidos como os “Bugres dos Olhos Claros”. A família retornava da Argentina, dos Hermanos, donde chibiaram* carregamento de armas, munição e sal, este em falta por acá. A missão mirava suprir as tropas revoltosas sitiadas em Eugênio de Castro. Assim era para ser. Ao todo uns dez, com os homens por diante, e cruzando São Luiz Gonzaga seguiam pelo corredor das tropas. Mais atrás iam as chinas*, dentre elas Jupiara*, a caçula.
    Embora cansadas, com pesada carga no lombo, uma das mulas orneou* ao aproximar-se do Piratini. Pela sede ou pressentido o perigo? Adentraram o passo tastaviando*, ao estalar de relhos, metendo as fuças em goles apressados. Nisto soou o primeiro tiro, derrubando uma mula. Foram atacados durante a travessia, no indefeso. Mesmo assim estendeu-se tiroteio, pois os tauras* fecharam-se num círculo, por escudo os muares a protegê-los... Mas aos poucos, um a um, iam caindo por água. Para não sucumbirem de todo, o mais velho combinou uma reação para, enquanto isto, Jupiara fugir dali, para avisar da emboscada, e não ficassem por desertores. Assim feito, em meio ao fogo cruzado a bugra mergulhou feito lambari, e correnteza abaixo se camuflou nos sarandis debruçados na barranca.
    De pouca prosa, anos depois ela mesma narrou o fato. Que o rio estava abaixo do normal, e com os olhos à flor d’água viu o cessar dos tiros, o grito dos mercenários a cercarem os seus, fazendo a degola sem dó. De ouvir o grito de guerra familiar do Tiqueira*, que no último atino riscou isqueiro e meteu-o no pavio de fora, isto na fração do golpe fatal. Do suceder de berros, logo sufocados pelo estouro da dinamite. Como último ato de batalha o mano fez explodir o carregamento e, junto dele as mulas, dois inimigos, armas e munições. Triste cena que entreviu por entre a fumaceira, com cheiro de sangue, este descendo em filetes no entardecer mais frio de sua vida.
    Como um dos maulas* tinha lhe visto, e este gritou por ajuda aos demais para caçá-la, imergiu novamente, saindo ao longe. Que deixaram de procurá-la, dizendo que morreria congelada. Já fora d’água e anoitecido aproximou-se do fogo inimigo, mirando os semblantes. Um deles estava ferido na perna. Um recolhia sacos de sal manchados de sangue, outros ajeitando pedaços de armas.
    E ainda Jupiara: No dia seguinte enterrou os corpos endurecidos, não dos maulas, mas dos seus que encontrou, pois alguns foram levados pela correnteza. E no pé da colina, explicou das cruzes, que naquele dia fez de um braço só. Que cumpriu o pedido do irmão, mas depois deu caça aos malevas, perseguindo o grupo forasteiro, e deu cabo deles, um por um. Só depois retornou, fincando um segundo braço nas cruzes*, e em oca que construiu, ali ficou para zelar as tumbas.
    Ninguém soube ao certo quantos matou, nem Jupiara o confessou. Já velha e murcha, era vista rodeando as cruzes de espinilhos*, reatados com cipós, mudas testemunhas de um massacre cruel, mas que não ficou impune.
    Quando deram por si, não mais a viram. Nem os peões da Fazenda Pacheco, nem das terras lindeiras do Seu Cardoso. E a tapera* lá ficou, a poucas léguas* das Ruínas de São Miguel. Ainda hoje, quem vasculhar há de encontrar pedaços de armas, de ferro, restos de batalha.  Mas do corpo ninguém soube, nem mesmo se o rio a levou.
    E lembrou um peão que a visitou: ela jogava milho aos pássaros e jacus*, aos quais domesticou. Recitava dizeres que expressava em grunhidos, num misto de portunhol* e guarani:
    - As águas do Piratini são quentes e protetoras para quem cumpre sua palavra.
    - Só há uma vida a ser vivida, neste chão só há paz para os bravos.
    Disse também o taura que ali, donde se deu a explosão, o vau ficou mais fundo. Aos mais intuitivos, estes pressentem ali o caricato olhar de Jupiara... a índia do Passo da Guerreira!
    Pesquisa e versão Otávio Reichert
    Facebook = Otavio Geraldo Reichert 

  • Sobre

  • Glossário:
    Reboou = fez eco, retumbou;
    Mameluco = Indivíduo com ascendência indígena e branca;
    Chibiaram = contrabando, foram da lei;
    China = primitivo nome da prenda, esposa do gaúcho;
    Tastaviando = tropeçando, desequilibrado;
    Tauras = valentes, arrojados;
    Tiqueira = nome indígena. Irmão mais velho;
    Jupiara = Guerreira independente, original, competitiva; nome indígena 
    Maulas = pessoa malevas, de má índole;
    Espinilho = árvore comum na região. Madeira dura e espinhosa;
    Cruz de dois braços = cruz de Caravaca ou de Lorena. Cruz missioneira;
    Lindeiras = encostadas, vizinhas;
    Tapera = casa abandonada, sem dono, em ruínas; 
    Légua = medida variável, entre 4 e 6 quilômetros;
    Jacus = ave de cor escura, similar às galinhas;
    Portunhol = mistura de português e espanhol;
    Orneou = similar ao relincho. Forma do muar anunciar presença, satisfação ou desejo. 
    Notícia: Cavalgada da Região das Missões ao Passo da Guerreira 
    Notícia: Cavalgada na Primeira Rota das Missões

Informações

Passo da Guerreira
São Miguel das Missões, RS
Distrito de São João das Missões, no Passo da Guerreira.
Telefone: (55) 3312-9485

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